Uma empresa aprende.
Ela aprende o que costuma ser prioridade.
Aprende o que pode esperar.
Aprende o que precisa passar pela empresária.
Aprende o que é considerado urgente, negociável, importante ou secundário.
E isso acontece todos os dias, muitas vezes sem que ninguém tenha decidido conscientemente que seria assim.
Se toda decisão passa por você, a empresa aprende centralização.
Se tudo chega como urgente, a empresa aprende urgência.
Se os processos dependem da sua memória, a empresa aprende dependência.
Se as conversas difíceis são adiadas, a empresa aprende espera.
Se o preço é sempre negociado, aprende que valor pode ser flexibilizado.
Se os números são acompanhados e participam das decisões, a empresa aprende responsabilidade financeira.
Se o que foi combinado é respeitado, aprende consistência.
A repetição constrói estrutura.
É por isso que algumas características de uma empresa parecem tão difíceis de mudar.
Elas nasceram da repetição, e não de uma única decisão.
Ao longo do tempo, o que se repete deixa de parecer uma escolha e começa a parecer simplesmente “o jeito como a empresa funciona”.
E talvez esteja aí uma das partes mais importantes da gestão: perceber o que a empresa está aprendendo com você.
Porque a empresária ensina o tempo todo, inclusive quando não está ensinando nada.
Ensina pelo que acompanha.
Pelo que tolera.
Pelo que prioriza.
Pelo que deixa para depois.
Pelo que centraliza.
Pelo que delega.
Pelo que pergunta.
Pelo que nunca pergunta.
Pelo que considera importante o suficiente para entrar na agenda.
E também pelo que permanece sempre sem espaço.
Existe uma parte que responde à forma como a empresa é conduzida.
Empresas são organismos complexos. Existem mercado, cenário econômico, pessoas, oportunidades, imprevistos e circunstâncias que escapam ao nosso controle.
Mas existe uma parte que responde diretamente à condução. E essa parte merece ser observada.
Porque existe uma diferença entre uma empresa que simplesmente funciona e uma empresa que está aprendendo a funcionar de acordo com o que deseja construir.
Talvez você tenha criado uma rotina para dar conta de uma fase que já passou.
Talvez tenha centralizado decisões quando a empresa era pequena e seguido com esse movimento depois que ela cresceu.
Talvez tenha aceitado determinados clientes para atravessar um período difícil e, anos depois, ainda esteja organizando a empresa em torno deles.
Talvez tenha se acostumado a resolver tudo porque era mais rápido.
E ficou tão boa em resolver que a empresa passou a precisar cada vez mais de você.
Existe uma ironia aqui: quanto mais competente você fica para resolver o cotidiano, mais eficiente pode se tornar em permanecer presa ao cotidiano.
Até que a empresa passa a pedir outra coisa.
Pede que o que você fazia sozinha seja compartilhado.
Que o que dependia da sua memória ganhe processo.
Que o que era decidido no improviso ganhe critério.
Que o que era urgente seja reorganizado.
Que o que você repetia por hábito volte a ser uma escolha.
É nesse momento que gestão deixa de ser apenas organizar tarefas e passa a ser também decidir o que merece continuar sendo repetido.
Porque toda repetição fortalece alguma coisa.
Uma forma de trabalhar.
Uma forma de decidir.
Uma forma de vender.
Uma forma de lidar com dinheiro.
Uma forma de conduzir pessoas.
Uma forma de ocupar o próprio lugar dentro da empresa.
E, depois de algum tempo, o que foi repetido começa a parecer estrutura.
Duas perguntas para levar para a sua semana.
O que a minha empresa está aprendendo com o que eu repito todos os dias?
E o que eu quero que ela aprenda daqui para frente?
Porque a empresa que você deseja construir também será formada pelas escolhas que você decide repetir.
E toda mudança de estrutura começa, em algum lugar, por uma nova forma de conduzir.
Porque a empresa que você constrói nasce do que você escolhe repetir.