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Identidade

O que decide antes de você

Por Elisandra Mara Pereira

Existe um instante muito curto entre a situação e a resposta.

Curto demais para ser percebido no dia a dia.

Nesse instante, alguma coisa dentro de você já decidiu.

Quando a escolha finalmente aparece em palavras, ela já vem formada. Você apenas a comunica.

É por isso que decidir cansa mais do que parece.

Não pelo peso da escolha em si, mas porque cada decisão atravessa uma camada que quase nunca é olhada.

Ali moram as suas referências sobre o que é seguro.

O que você aprendeu a esperar das pessoas.

O que você acredita que pode pedir.

Quanto você acha que merece.

O que você teme que aconteça se disser não.

Nada disso está escrito em lugar nenhum. E tudo isso participa das reuniões.

Uma empresa é conduzida a partir de um lugar.

Duas empresárias podem olhar para o mesmo cenário, com os mesmos números, e decidir de formas opostas.

A diferença raramente está na informação.

Está no lugar de onde cada uma está olhando.

Uma olha de um lugar em que o dinheiro é escasso e precisa ser agarrado. Outra olha de um lugar em que o dinheiro circula e responde a critérios.

Uma olha de um lugar em que ser querida importa mais do que ser respeitada. Outra já fez as pazes com a possibilidade de desagradar.

Nenhuma das duas está escolhendo esse lugar conscientemente.

E, ainda assim, é dali que a empresa está sendo construída.

Percebi isso primeiro em mim.

Houve um tempo em que eu acreditava estar tomando decisões racionais. Eu tinha os números, tinha a análise, tinha o argumento pronto.

Só que os números serviam à conclusão que eu já tinha antes de abri-los.

Foi desconfortável reconhecer isso. E foi o começo de outra coisa.

Porque, a partir do momento em que você enxerga o lugar de onde decide, ele deixa de decidir sozinho.

Consciência não muda a empresa de imediato.

Ela faz algo mais lento e mais definitivo.

Cria uma fresta entre a situação e a resposta.

Um espaço pequeno, de alguns segundos, em que você consegue perguntar: essa escolha está vindo de onde?

Do que eu quero construir, ou do que eu aprendi a temer?

Da empresa que eu decidi criar, ou da mulher que eu era quando comecei?

Muitas vezes a resposta continua a mesma. Mas ela passa a ser sua.

E uma decisão que é sua se sustenta de um jeito diferente.

Ela não precisa ser defendida o tempo todo, porque não nasceu de reação.

Ela aguenta o desconforto de quem não gostou.

Ela permanece de pé no dia seguinte, quando a emoção do momento já passou.

É assim que uma empresa ganha consistência. Não pela quantidade de decisões certas, mas pela origem delas.

Talvez seja esse o trabalho mais silencioso de quem conduz um negócio.

Cuidar do lugar de onde se decide.

Porque a empresa vai longe até onde essa mulher consegue ir.

E ela chega até onde consegue se enxergar.

Porque antes de qualquer estrutura, existe quem decide.

Um primeiro olhar sobre onde o seu negócio está agora.

Começar pelo diagnóstico